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Após fuga, três jovens afegãs criam escola em base militar nos EUA

Batool Behnam, Sepehra Azami e Nilab Ibrahimy ensinam inglês para mais de 250 alunos entre 7 e 60 anos de idade

08/11/2021 02h05
Por: Portal suldopiaui.com.br Fonte: R7 - Leticia Sepúlveda, do R7

Na base militar de Fort McCoy, no estado de Wisconsin, no norte dos Estados Unidos, as afegãs Batool Behnam e Sepehra Azami, 25 anos, e Nilab Ibrahimy, 23 anos, viram a oportunidade de transformar a vida de outros refugiados de seu país por meio da educação.

"Reparamos que as crianças estavam sempre entendidas e ansiosas com sua nova realidade, foi a partir daí que decidimos fazer alguma coisa. Pensamos em dar aulas de inglês, então entramos em contato com os oficiais da base e eles nos ajudaram com um local apropriado", explica Sepehra. 

“Quando começamos, tínhamos apenas um quadro branco para as primeiras aulas, mas depois recebemos materiais das autoridades e de uma organização religiosa”, completa Nilab. “Para nós, mulheres que trabalhavam em tempo integral no Afeganistão, a ideia de ficar apenas em nossos quartos sem nada para fazer era inaceitável”. 

A escola recebeu o nome de “Rise Again” (Levantar Novamente), como uma forma de resignificar um momento tão difícil na vida dos alunos. Batool conta que todos eles deixaram tudo para trás quando saíram do Afeganistão, mas vieram recomeçar. "A educação é algo que nos empodera, então mesmo depois de perder tudo, podemos nos reerguer com essa oportunidade e ter a esperança de um futuro melhor".

As aulas começaram em 11 de setembro, apenas 8 dias após a chegada das meninas em Wisconsin, e exatamene 20 anos após os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, que motivaram a ocupação norte-americana no Afeganistão.

A base militar, atualmente, abriga cerca de 13 mil afegãos que deixaram o país após a retomada do grupo extremista Talibã, em 15 da agosto deste ano, e que forçou a retirada de todas as tropas estrangeiras de forma repentina e acelerada.

Para além das aulas de inglês, Nilab, Batool e Sepehra também ensinam matemática e tentam passar informações para os alunos sobre a cultura dos Estados Unidos, muito diferente dos costumes afegãos. Para elas, é importante falar sobre a realidade que os refugiados irão enfrentar quando saírem da base militar, um abrigo temporário com permanência máxima de 6 meses.

Atualmente, a escola tem mais de 350 alunos entre 7 e 60 anos de idade. “Os meninos e as meninas estudam juntos, mas homens e mulheres preferem estudar separados, então organizamos aulas diferentes a partir da faixa estária dos 14 anos", explica Nilab.

Como refugiados do Afeganistão continuam chegando, a escola recebe novos estudantes todos os dias. As criadoras do projeto começaram a ensinar alguns alunos para que eles possam assumir as aulas depois que elas deixarem a base militar. Desta forma, a escola continuará funcionando apesar da ausência das três fundadoras.

“Nós levamos alguns alunos, homens e mulheres, para as nossas aulas, para que no futuro possam continuar nosso trabalho. Com isso, o sistema de ensino será mais duradouro para as outras pessoas que continuarão chegando. Estamos muito esperançosas de que essa ideia dará certo”, diz Nilab.

Fuga do Afeganistão

Quando a pandemia de Covid-19 começou, as alunas afegãs da Asian University for Women (AUW), em Bangladesh, insituição em que Nilab, Batool e Sepehra estudavam, precisaram voltar para seu país. Entretanto, com a volta do Talibã ao poder, as autoridades da Universidade se organizaram para tirar suas alunas do Afeganistão.

Ao lado de 150 alunas e ex-alunas da AUW, as meninas enfrentaram o caos do aeroporto de Cabul, capital afegã, nos primeiros dias do novo governo talibã, na tentativa desesperada de deixar o país. O local era a única porta de saída do país e, por isso, uma zona de perigo para militares e civis pelo risco de um ataque terrorista.

Em 25 de agosto, dez dias após a retomada dos extremistas, elas perderam um primeiro voo com destino a Bangladesh, quando oficiais talibãs as impediram de entrar no aeroporto. O grupo passou dois dias em um ônibus nos arredores do local, tentando conseguir entrar em um avião.

Em uma segunda tentativa, dias após a primeira, voos comerciais pararam de operar em Cabul. O aeroporto estava praticamente inoperante desde que as tropas dos EUA concluíram sua saída em 30 de agosto, em uma retirada que permitiu a fuga de mais de 120 mil pessoas do país.

Desta forma, o reitor da Universidade conseguiu que as meninas deixassem o Afeganistão por meio de um avião militar dos Estados Unidos.

Assim, Nilab, Batool, Sepehra e suas colegas deixaram o país rumo à base militar de Fort McCoy. Elas viajaram com poucos pertences e sem se despedir de seus familiares.

Desde a fuga, Sepehra conta que ela e as colegas não sabem o que está para acontecer em suas vidas. “Nós falamos com nossas famílias diariamente e perguntamos sobre a situação no Afeganistão, mas não temos ideia de como o futuro vai ser e se ainda conseguiremos falar com eles."

"Como refugiadas aqui no Estados Unidos não conseguimos ter meios para tirá-los do país, mas nossa universidade está nos ajudando com a contratação de um advogado para que possamos ter acesso a um green card e ajudar nossas famílias”.

"Nossas vidas voltaram 20 anos"
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Com o passado sombrio do Talibã, que controlou o Afeganistão entre 1996 e 2001, as fundadoras da escola não acreditam nas promessas do grupo de que serão mais moderados neste novo governo.

"No primeiro dia em que eles tomaram Cabul, nós perdemos os nossos empregos, então nossas vidas voltaram 20 anos. Eles prometem para a mídia que deixarão as afegãs voltarem ao trabalho, mas nossas colegas continuam em casa", diz Nilab. "Além disso, as escolas continuam fechadas para as meninas, mas mesmo para os meninos a situação é complicada, já que os professores estão sem receber seus salários."

A partir da sexta série do ensino afegão, quando as meninas têm cerca de 13 anos, elas estão proibidas de continuar os estudos. A irmã mais nova de Sepehra está inserida nesta realidade.

"Eles dizem que as mulheres podem ir às universidades, mas como elas podem cursar o ensino superior se estão proibidas de irem à escola?”, questiona Batool.

Mesmo com todas as limitações impostas pelo grupo extremista, as afegãs continuam indo às ruas para lutar pelo direito ao estudo e ao trabalho. "Elas sabem que se saírem podem ser assassinadas pelo Talibã, mas, mesmo assim, continuam tentando ser ouvidas", completa a jovem.

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